Barcelos, a antiga capital da Amazônia
Localizada a 399 km de Manaus, seguindo o curso do rio Negro, Barcelos é uma cidade que já foi o epicentro do poder na Amazônia e que, com o tempo, acabou esquecida pela maioria das pessoas. Originária de uma aldeia indígena, a cidade se transformou em capital da capitania e viveu períodos marcantes ligados à extração do látex, antes de quase desaparecer do mapa.
Em 1956, um pesquisador americano chamado Herbert Axelrod encontrou na região um pequeno peixe vermelho e azul, com o tamanho aproximado de um dedo. Esse achado foi fundamental para mudar a economia local, criando uma atividade profissional singular e, com o passar dos anos, garantindo a Barcelos um certificado inédito em todo o mundo.
A importância histórica de Barcelos para a Amazônia
A história dessa cidade começa na aldeia indígena de Mariuá, habitada pelos povos Manaó, Baré, Baniwa, Passé e Werekena. Em 1728, o frei carmelita Matias de São Boaventura fundou a Missão de Nossa Senhora da Conceição de Mariuá no local.
Trinta anos depois, em 1758, a aldeia foi elevada à categoria de vila e recebeu o nome de Barcelos, em homenagem a uma cidade portuguesa. A partir daí, tornou-se a primeira capital da Capitania de São José do Rio Negro, região que mais tarde se tornaria o estado do Amazonas. A capital só passou a ser Manaus muitos anos depois.
Atualmente, Barcelos é o segundo município brasileiro em extensão territorial, ficando atrás apenas de Altamira, no Pará. Suas vastas florestas são áreas que a maioria dos brasileiros jamais terá a oportunidade de conhecer pessoalmente.
O selo de origem único para peixes vivos
Na década de 1950, durante uma expedição pelo rio Negro em busca do acará-disco, Herbert Axelrod descobriu um cardume de peixinhos com uma faixa azul fluorescente sobre a barriga vermelha: o cardinal tetra. Essa espécie ganhou o nome científico em homenagem ao pesquisador e transformou Barcelos em um centro mundial de comércio de peixes ornamentais.
Foi ali que nasceu a profissão do piabeiro, o pescador que captura peixes para aquário utilizando canoas, remos e rapichês. Atualmente, o cardinal tetra representa mais de 80% do volume de exportação de peixes ornamentais da região.
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Fonte: diariofloripa.com.br
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Fonte: diretodorecife.com.br
Em 9 de setembro de 2014, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu a Indicação de Procedência “Rio Negro” para peixes ornamentais, abrangendo Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro, conforme registrado na lista oficial do Ministério da Agricultura. Segundo o Projeto Piaba, essa foi a primeira vez no mundo que uma indicação geográfica foi concedida a um organismo vivo.
O Festival do Peixe Ornamental e a rivalidade local
Todo mês de janeiro, Barcelos se transforma em palco de uma disputa vibrante durante o Festival do Peixe Ornamental (FESPOB), criado em 1º de julho de 1994. O evento opõe duas agremiações: o Cardinal, que usa azul e vermelho, e o Acará-Disco, com preto e amarelo.
A competição acontece no Piabódromo, uma arena especialmente construída para o festival, cujas arquibancadas são chamadas de cardumes. Em 2026, a festa atingiu sua 30ª edição, com programação de 29 de janeiro a 1º de fevereiro, incluindo shows na Praia Grande. Reconhecido como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do Amazonas, o evento é comparado pelo prefeito local a rivalidades esportivas como Vasco e Flamengo ou Caprichoso e Garantido.
Belezas naturais e riquezas ambientais de Barcelos
Barcelos guarda tesouros naturais pouco conhecidos, como parte do Parque Nacional do Jaú, criado em 1980 e listado como Patrimônio Mundial pela UNESCO. O parque também integra o Complexo de Conservação da Amazônia Central, é Reserva da Biosfera e abriga sítios arqueológicos com petróglifos gravados nas rochas, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Mais ao norte, encontra-se o Parque Estadual Serra do Aracá, criado em 1990, que ocupa cerca de 1.818.700 hectares, o equivalente a 15% do território municipal, conforme dados da Prefeitura de Barcelos. Nesse parque está localizada a Cachoeira do Eldorado, a mais alta queda d’água do Brasil, com mais de 350 metros de altura. A serra é um tepui, uma formação geológica irmã do famoso Monte Roraima.
Na margem oposta da principal via da cidade, o arquipélago de Mariuá espalha mais de 1.400 ilhas pelo rio Negro. Durante o período de seca, essas ilhas se transformam em praias de areia branca, cenário único na região.
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Fonte: daquibahia.com.br
Clima, acesso e turismo em Barcelos
O clima de Barcelos é caracterizado por temperaturas estáveis durante o ano, enquanto o nível do rio Negro varia, definindo as atividades possíveis e as formas de acesso à cidade.
A temporada de pesca esportiva do tucunaré-açu, que acontece de setembro a fevereiro, atrai pescadores de outras regiões. O Festival do Peixe Ornamental acontece justamente no meio desse período, potencializando o turismo local.
Para chegar a Barcelos, são 399 km a partir de Manaus, sem estradas que liguem as cidades. O transporte fluvial é feito por barcos regionais chamados recreios, que levam cerca de 32 horas rio acima. Também há embarcações expressas, conhecidas como jatos, que realizam o trajeto em aproximadamente 12 horas. Além disso, existem voos em aeronaves de pequeno porte com duração pouco superior a uma hora.
Para visitar a Serra do Aracá, o trajeto continua rio acima, exigindo o uso de voadeiras e autorização prévia, pois não há infraestrutura para turistas no parque.
Barcelos: um lugar onde o rio define o tempo
Antes de Manaus assumir o papel de capital do Amazonas, Barcelos já exercia essa função e, mais tarde, ajudou a posicionar o Brasil como referência mundial no comércio de peixes ornamentais. A cidade abriga a cachoeira mais alta do país e mantém viva uma cultura singular, marcada pela relação íntima com o rio Negro.
Quem visita Barcelos deve estar preparado para jornadas longas, seja pelo rio ou pelo ar, e para compreender que a vida local segue o ritmo das cheias e vazantes do rio. Subir o rio Negro até Barcelos, assistir ao Piabódromo lotado em janeiro e conhecer a história do pequeno cardinal tetra é mergulhar em um pedaço único da Amazônia e do Brasil.

