Histórico e resultado da eleição
O Amazonas, estado com a maior população indígena do Brasil, terá pela primeira vez um deputado indígena na Assembleia Legislativa a partir de 2027. Clóvis Curubão (PT), ex-prefeito de São Gabriel da Cachoeira, foi eleito deputado estadual no último domingo (4), obtendo 34.869 votos. Em âmbito nacional, quatro indígenas conquistaram assentos em parlamentos estaduais nas eleições de 2026.
Perfil e trajetória de Clóvis Curubão
Curubão pertence à etnia Tariana, que reúne mais de 2,6 mil pessoas no Brasil. Ele foi prefeito de São Gabriel da Cachoeira por dois mandatos e tem sua sucessão articulada com o sobrinho Egmar Curubinha (PT), atual gestor da cidade, onde a maioria da população é indígena. A campanha de Curubão recebeu R$ 173 mil do partido e focou em visitas a comunidades indígenas e não indígenas, principalmente no Alto Rio Negro.
Entre as propostas apresentadas, destacam-se a padronização do transporte fluvial, melhorias na infraestrutura de comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas, além da preservação ambiental e valorização da medicina tradicional. Apesar de sua origem indígena, Curubão não contou com o apoio formal das principais entidades do movimento indígena, devido a divergências em pautas como o garimpo em terras indígenas, tema que ele já defendeu e que é rejeitado pela maioria dessas organizações.
Reação do movimento indígena
Maria Baré, coordenadora da Articulação dos Povos e Comunidades Indígenas do Amazonas (Apiam), afirmou que a entidade pretende estabelecer diálogo com o novo deputado para aproximá-lo do movimento indígena organizado. A Apiam é a principal organização indígena do estado e base da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), vinculada à Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
Maria ressaltou que, apesar das discordâncias anteriores, o contato é fundamental para avançar em políticas e demandas indígenas. Ela destacou a importância de Curubão atuar como referência na Comissão de Assuntos Indígenas da Assembleia Legislativa, um espaço que nos últimos anos careceu de interlocução efetiva com os povos originários. A coordenadora também enfatizou a necessidade de o governo do Amazonas assumir responsabilidades nas áreas de educação e saúde indígena, criticando a postura que atribui toda a responsabilidade ao governo federal.
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Representação indígena no Congresso e Assembleias
Nas eleições de 2026, três indígenas foram reeleitos para a Câmara dos Deputados: Paulo Guedes (PT-MG), Juliana Cardoso (PT-SP) e Sonia Guajajara (PSOL-SP). A Bancada do Cocar reduzirá de quatro para três integrantes a partir de 2027, já que Célia Xakriabá (PSOL-MG) não renovou o mandato.
Além de Curubão, outros três indígenas conquistaram vagas nas Assembleias Legislativas: Índia Armelau (PL) no Rio de Janeiro, Capitão Assumção (PL) no Espírito Santo e Limma (PT) no Piauí. Dessa forma, a presença indígena nos parlamentos estaduais dobrará, passando de dois para quatro representantes.
Jerônimo Rodrigues (PT) foi reeleito governador da Bahia e seguirá como o único chefe do Executivo estadual indígena do país. No Senado, nenhum indígena foi eleito em 2026.
Contexto demográfico e eleitoral no Amazonas
Com 490.935 indígenas, o Amazonas lidera o número de pessoas indígenas no Brasil, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nas eleições de 2026, 73.580 eleitores do estado se declararam indígenas, conforme dados do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM).
A eleição de Curubão representa uma mudança histórica, pois a Assembleia Legislativa do Amazonas nunca teve um deputado estadual indígena. Neste pleito, 22 candidatos indígenas disputaram vagas, mas somente Curubão foi eleito. Ele concentrou a maior parte dos votos em São Gabriel da Cachoeira, onde obteve 17.563 votos, equivalente a 74,16% dos votos válidos para deputado estadual no município.
Alerta da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
Em nota publicada no dia seguinte à eleição, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) alertou que o novo Congresso Nacional tende a ser mais hostil às pautas indígenas. A entidade destacou o crescimento de bancadas de direita e grupos contrários à demarcação e aos direitos territoriais indígenas.
Segundo a Apib, a nova composição da Câmara e do Senado eleva a pressão sobre os territórios tradicionais, colocando os direitos indígenas no centro das disputas legislativas do próximo ciclo. A organização classificou o próximo Congresso como o “mais inimigo dos povos da história” e convocou para a mobilização conjunta das organizações regionais.
Histórico da participação indígena na política brasileira
De acordo com a Justiça Eleitoral, o primeiro indígena eleito no Brasil foi o vereador Manoel dos Santos, conhecido como Seu Coco, em 1969, no município de Oiapoque (AP). A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, porém, reconhece a vereadora Carmelita Cruz, eleita em 1963 em Rodelas (BA), como a primeira mulher indígena eleita.
Desde 2019, a Justiça Eleitoral tem promovido ações para ampliar a participação indígena na política, como cartilhas bilíngues e urnas adaptadas às línguas indígenas.

