Festival de Parintins como palco para a cultura indígena
Ao chegar à Cidade Garantido, o pesquisador indígena João Paulo ressaltou a relevância do Festival Folclórico de Parintins para dar visibilidade aos conhecimentos, à cultura e às lutas dos povos indígenas. Para ele, o evento tem se consolidado como um espaço fundamental para a divulgação da realidade dos povos originários e temas relacionados à preservação da floresta, dos rios e dos territórios indígenas.
“Esse Festival de Parintins, o Boi-Bumbá, tem dado uma visibilidade muito grande, tanto para os aspectos regionais quanto, sobretudo, para os conhecimentos indígenas. É o canal que nos possibilita divulgar a nossa existência, a nossa luta e a nossa vida com tudo o que está em nosso entorno: água, terra, floresta, rios e animais”, afirmou João Paulo em entrevista ao g1.
Contribuições acadêmicas e culturais
Fundador do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, em Manaus, e o primeiro indígena doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), João Paulo destacou que o Bumbódromo amplia o alcance de discussões essenciais para os povos indígenas. Entre os temas abordados estão a valorização dos saberes tradicionais, a defesa dos territórios indígenas e a demarcação de terras.
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Ele também revelou que sua produção acadêmica tem ligação direta com o Boi Garantido. Pesquisas sobre os Kumu — especialistas indígenas nos saberes tradicionais de cura e cuidado — inspiraram a toada “Bahsese”, que integra o repertório do bumbá. A música traduz os conhecimentos ancestrais ligados à saúde e ao cuidado nas comunidades indígenas.
“Existe uma música chamada Bahsese, que foi composta a partir do meu trabalho de pesquisa. Hoje, isso se torna uma potência para a gente falar sobre a nossa tecnologia de cuidado, que é a saúde”, explicou João Paulo. Ele ainda realiza intercâmbio de saberes dentro da universidade ao lado de outros pesquisadores indígenas, como Jafati e Socorro.
Arte como ponte entre ciência e sociedade
Para o antropólogo, transformar pesquisas científicas e saberes ancestrais em arte facilita o diálogo com a sociedade e aproxima temas que muitas vezes ficam restritos ao ambiente acadêmico. “Eu costumo dizer que a arte é uma linguagem que todo mundo compreende, que todo mundo tem acesso. É fácil falar em movimento, canto e pinturas. Tudo isso entra para nós como uma possibilidade de falar”, disse.
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Ele ressalta que a arte consegue comunicar de forma simples assuntos que, em outros contextos, podem parecer distantes da população. “Muitas coisas que a gente fala academicamente ou religiosamente ninguém consegue entender. Parece que distancia as pessoas. Mas a arte não. A arte é esse espaço que nos possibilita isso”, completou.
Emoção e expectativa para o Festival de 2025
Homenageado pelo Boi Garantido no festival do ano passado, quando a agremiação conquistou o título, João Paulo retorna à ilha com sentimento de gratidão e expectativa para a disputa deste ano. Ele destaca a dificuldade de traduzir em palavras a emoção de ver os conhecimentos indígenas representados na arena.
“A gente fica sem palavras. Fica impressionado sem poder expressar na forma de voz, a não ser cantar. O canto é a nossa expressão mais confidencial”, afirmou. João Paulo também relembrou a homenagem recebida em 2025 e se mostrou otimista na busca por mais um título do Garantido: “No ano passado fomos homenageados e ganhamos. Este ano voltamos animados para ganhar novamente”.

