Oportunidade e desafio da pecuária no Amazonas
O mercado internacional de carnes começa muito antes da chegada do produto ao porto ou à fronteira. Ele se estrutura dentro das propriedades rurais, onde cada etapa da produção precisa atender a padrões que vão além das exigências nacionais. O Brasil já consolidou sua carne bovina em diversos mercados internacionais, tornando-se uma das principais forças do comércio exterior. Para o Amazonas, o desafio atual é converter o crescimento do rebanho em uma cadeia produtiva capaz de certificar, processar e entregar uma proteína apta a competir em mercados internacionais.
Dimensão do rebanho e potencial produtivo
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o rebanho bovino amazonense ultrapassou 2,6 milhões de cabeças em 2024. Esse número é significativo para um estado que, por décadas, concentrou a pecuária em regiões específicas, voltada principalmente para o abastecimento interno. Municípios como Lábrea, Boca do Acre, Apuí e o distrito de Santo Antônio do Matupi são alguns dos principais polos de produção. Porém, o crescimento do rebanho não pode ser medido apenas pela quantidade de animais. O próximo passo essencial é transformar esse volume em valor, convertendo produção em produto certificado e matéria-prima em proteína apta a competir em mercados mais exigentes.
Sanidade e rastreabilidade como pilares para ampliar mercados
A sanidade animal é fundamental nessa transformação. Em 2025, o Amazonas conquistou o reconhecimento internacional como zona livre de febre aftosa sem vacinação, eliminando uma barreira sanitária importante para a expansão da pecuária local no comércio exterior. Esse reconhecimento representa uma porta aberta, mas exige vigilância contínua, controle sanitário rigoroso, identificação dos animais, regularização das propriedades e a capacidade de comprovar a origem da produção.
No comércio internacional, a qualidade do produto está diretamente ligada à capacidade de demonstrar documentalmente sua procedência e as condições de produção. Para a pecuária amazonense, produzir mais é necessário, mas produzir com qualidade e conformidade é indispensável para acessar compradores internacionais.
Infraestrutura, inspeção e logística como desafios estratégicos
Fortalecer a inspeção, ampliar a rastreabilidade, estimular a regularização das propriedades e garantir que os frigoríficos estejam aptos a processar a produção conforme as exigências dos mercados externos são passos essenciais. A logística representa um desafio histórico para o Amazonas, devido à distância dos grandes centros consumidores e exportadores. Transporte, armazenamento, processamento e escoamento devem funcionar integrados, já que a competitividade da proteína perde força quando os custos logísticos tornam sua chegada ao mercado inviável.
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Regularização fundiária: base para o desenvolvimento sustentável
Antes de avançar em outras etapas, a regularização fundiária precisa ser encarada como prioridade. A falta de segurança jurídica impede que produtores invistam plenamente, acessem crédito e formalizem suas atividades. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) desempenha papel fundamental nesse processo, especialmente nas áreas sob responsabilidade da União.
Não é possível exigir rastreabilidade, conformidade ambiental e sanitária sem solucionar a situação fundiária dos produtores. A regularização da terra prepara o produtor para produzir com qualidade, certificar sua produção e acessar mercados exigentes. A segurança jurídica deve caminhar lado a lado com a evolução sanitária e produtiva da pecuária.
Transformando produção em valor para a economia local
O Brasil demonstra que há mercado para quem alia escala, regularidade e qualidade. As exportações nacionais de carne bovina atingiram níveis históricos, impulsionadas pela abertura de novos destinos e pela capacidade industrial de atender diferentes padrões. O Amazonas não precisa replicar modelos de outras regiões, mas sim construir uma cadeia produtiva própria, alinhada às suas características econômicas, territoriais e ambientais.
Quanto maior o processamento realizado no estado, maior a retenção de valor na economia local. Isso envolve produtores, assistência técnica, sanidade, transporte, indústria, trabalhadores, serviços e comércio exterior. Quando sustentada por uma cadeia estruturada, a exportação deixa de ser apenas a saída de mercadoria e se torna uma oportunidade de diversificação econômica. Para o Amazonas, que ainda importa grande parte dos alimentos e enfrenta custos logísticos elevados, ampliar a produção e agregar valor localmente é uma estratégia essencial.
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Preparando a pecuária amazonense para competir globalmente
O objetivo não é simplesmente acelerar as exportações, mas preparar a pecuária para competir quando as condições forem adequadas. Isso requer previsibilidade, segurança sanitária, regularização fundiária e ambiental, assistência técnica, infraestrutura e investimento privado. O crescimento do rebanho deve ser acompanhado por ganhos de produtividade, tornando a pecuária moderna eficiente na transformação de recursos e trabalho em proteína valorizada pelo consumidor.
A carne do Amazonas pode acessar novos mercados, mas esse caminho começa na propriedade que adota controle sanitário, no produtor que regulariza suas terras, na infraestrutura que assegura rastreabilidade, no frigorífico que cumpre as normas de inspeção e na logística eficiente. O mercado internacional exige qualidade comprovada, segurança e regularidade na entrega.
Essa nova fronteira não se resume a exportar carne produzida no Amazonas. Trata-se de demonstrar que o estado pode gerar valor para o mercado global, por meio de uma cadeia produtiva madura, profissionalizada e competitiva.
O autor da análise é coronel da Polícia Militar, especialista em Política e Estratégia (ADESG) e secretário de Estado Chefe da Casa Militar do Amazonas.

