Descoberta na Foz do Amazonas: entre otimismo e cautela
A recente identificação de petróleo no poço Morpho, localizado na bacia da Foz do Amazonas, litoral do Amapá, traz um cenário promissor para o Brasil, mas não sem desafios. Ildo Sauer, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP e ex-diretor da Petrobras, considera o achado “animador”, porém alerta para a necessidade de cautela diante das incertezas técnicas e das dúvidas sobre a distribuição dos benefícios gerados.
Em entrevista à BBC News Brasil, Sauer questiona a visão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que classificou a descoberta na Margem Equatorial como um “passaporte para o futuro do Brasil”. Para o especialista, a mesma expressão foi usada no início da exploração comercial do pré-sal em 2006, mas o modelo adotado nos últimos 20 anos não permitiu que essa promessa se concretizasse. “Não foi um passaporte para o futuro. Os recursos do pré-sal foram queimados até agora”, afirma.
Modelo de exploração e o papel do Estado
Sauer defende há anos maior controle estatal, especialmente pela Petrobras, na exploração do petróleo brasileiro. O ex-diretor da estatal ressalta que os lucros deveriam ser direcionados ao desenvolvimento nacional, financiando áreas essenciais como educação, saúde e infraestrutura.
“Minha defesa sempre foi usar os recursos do petróleo para financiar um plano nacional de desenvolvimento econômico e social”, destaca. Segundo ele, investir em tecnologia e promover uma transição gradual para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis são medidas que ainda não foram efetivadas.
Leia também: Prefeitura de Manaus abre inscrições para gastronomia no #SouManaus Passo a Paço 2026
Leia também: Desafios Logísticos da Vazante no Amazonas: Como Antecipar Impactos na Economia
Etapas para a exploração e desafios técnicos
A Petrobras confirmou a descoberta em águas ultraprofundas, a cerca de 175 km da costa do Amapá. Apesar dos primeiros indícios positivos, como a presença de óleo leve, mais valioso comercialmente, a avaliação ainda está no início. Sauer explica que é necessário perfurar um segundo poço exploratório para confirmar a descoberta e estimar o volume de óleo.
Após essa etapa, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) precisa autorizar a elaboração de um plano de avaliação, que envolve estudos geológicos, geofísicos e econômicos para definir a viabilidade do projeto. Somente depois da aprovação da viabilidade comercial é que um plano de desenvolvimento será elaborado. “Leva no mínimo quatro anos até o início do desenvolvimento”, afirma Sauer, projetando um horizonte de cinco a sete anos para que o petróleo chegue ao mercado.
Distribuição da riqueza e críticas ao modelo atual
O principal ponto de crítica do especialista não é a descoberta em si, mas o modelo de exploração e a forma como a renda do petróleo é distribuída. Ele argumenta que os recursos do subsolo pertencem a toda a população e que os ganhos obtidos com o pré-sal não resultaram em melhorias proporcionais em áreas fundamentais.
“Se seguirmos o mesmo paradigma do pré-sal para a Margem Equatorial, não haverá avanço”, alerta. Segundo Sauer, uma parcela pequena da riqueza gerada se converte em investimentos capazes de transformar o país. Os recursos são divididos entre custos de produção, royalties, tributos e lucros das empresas, mas faltam mecanismos para garantir que a renda seja prioritariamente investida em educação, saúde, ciência e tecnologia.
Leia também: Versão de R$ 550 de GTA 6 domina pré-venda com quase 90% das compras
Leia também: Economia Azul: Investimento de US$ 2,5 bilhões para fortalecer o setor até 2030
Ele também critica o desenho regulatório do setor, apontando que o Estado brasileiro captura uma fatia menor da renda petroleira do que poderia. Para mudar essa realidade, propõe a aplicação da Lei nº 12.351/2010 para que a Petrobras seja contratada diretamente pela União em um regime semelhante ao de prestação de serviços. Assim, a estatal receberia apenas o custo de produção, e o excedente econômico seria destinado ao Tesouro Nacional para financiar o desenvolvimento social.
Potencial geopolítico e desafios para o Brasil
Sauer destaca que a descoberta reforça o papel estratégico do Brasil na geopolítica do petróleo. O pré-sal já posicionou o país como um ator relevante, e a Margem Equatorial pode ampliar essa influência. Porém, o Brasil ainda é um “tomador de preços” no mercado internacional, beneficiando-se dos valores sustentados pela Opep e seus aliados, sem participar efetivamente da definição dos preços.
Ele identifica uma cultura de “subalternidade” nas políticas nacionais, que limita o protagonismo brasileiro na governança energética. Com uma produção diária de cerca de 4,5 milhões de barris e potencial de expansão, o país poderia assumir um papel mais estratégico, desde que conquiste independência e autonomia para atuar no mercado global de forma soberana.
Por fim, Sauer ressalta que o impacto da descoberta no litoral do Amapá não será imediato em crises internacionais, como as tensões no Estreito de Ormuz. “A Margem Equatorial ainda é um pássaro voando”, refere-se à necessidade de confirmação e desenvolvimento para a produção comercial efetiva.

